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Aarãozinho, sua esposa Zenaide e as filhas: Consuelo (direita)
Regina Martha (esquerda) e Bernadete (centro) |
Aarão Jorge Junior, o Aarãozinho, meu avô, além da família, quase que equiparadamente
amava e falava orgulhosamente de algumas obras públicas que colaborara
decisivamente para a sua concretização: a Santa Casa de Misericórdia de Castelo - Espírito Santo;
a Capela Nossa Senhora das Graças ; e as escolas, em Castelo e em Ibiraçu, no
norte do Espírito Santo, então uma pequenina vila. E passeando nos arquivos que
nos deixou – com dezenas de fotos e documentos - constatamos que era verdadeiro este amor por estes
empreendimentos, os quais tratava como se filhos fossem.
Santa Casa de Misericórdia de "Castello"
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| A Santa Casa no seu início. |
Aarãozinho, em depoimento para a Memória de Castelo - e transcrita no livro 'Castello": Origem, Emancipação e Desenvolvimento" (1), nos
legou as seguintes palavras sobre a história da construção da Santa Casa de
Misericórdia, em Castelo, que ficou conhecida, no seu tempo, como uma das unidades de saúde mais
modernas em atendimento e equipagem, inclusive, face às existentes na Capital
do Estado:
Antes da construção da Santa Casa de Misericórdia, em
Castelo, a cidade só contava, para atendimento à saúde da população com um
pequeno dispensário: o Dispensário Santo Antônio. Este funcionava em um sobrado
alugado, onde eram dispensados serviços médicos e gratuitamente. Ocorreu que o proprietário do sobrado mudou-se para o Rio de
Janeiro, enquanto as senhoras Elzira Vivacqua dos Santos e Naly Faria Marques
se ocupavam da administração.
Tudo corria bem com o dispensário, até que, um ou dois anos
depois o Dr Francisco [proprietário do imóvel] solicitou de ambas a devolução
de camas e mesas ou a remessa de, apenas, oitocentos mil réis (R$ 800$000). As
duas ilustres damas não sabiam como fazer, ficaram embaraçadas porque não
tinham o dinheiro solicitado. Nessa oportunidade, encontrava-me, por acaso, na
farmácia do saudoso Sr. Elmo Ribeiro do Val. Quando, inopinadamente, ali
chegaram as duas senhoras e relataram ao Sr. Elmo, em prantos, característica
da saudosa D. Elzira, a situação embaraçosa na qual se encontravam por não
possuírem, naquela oportunidade, a importância que lhes era solicitada,
antevendo, assim, o desaparecimento de uma obra social de seus sonhos, que
vinha prestando relevantes serviços à pobreza e aos doentes desvalidos.
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| Inauguração da Maternidade |
Eu era, nessa oportunidade, apenas um assistente de seus
dissabores, cujas lágrimas dilaceraram meu coração, e por esta razão,
inopinadamente, tomei a liberdade de oferecer àquelas duas ilustres damas que
vinham prestando relevantes serviços aos doentes e à pobreza de Castello,
redigir um Abaixo Assinado para conseguir toda a importância por elas desejada,
deixando-as esperançosas. Ato contínuo dirigi-me ao Cartório e redigi um abaixo
assinado na expectativa de conseguir a importância desejada. Pus-me em campo e,
primeiramente, procurei o Prefeito Dr. Mario Lima e solicitei de S. Excia a
assinatura de uma importância de cinco mil cruzeiros ou melhor cinco contos de
réis, apenas como chamariz, em nome da prefeitura, sem necessitar da
importância.
Coloquei neste abaixo assinado a grande obra meritória das
duas ilustres damas e, imediatamente assinei Rs 100$000 e assim fui conseguindo
dos saudosos Elmo, Oscar Rangel, Taninho, Gatinho, Elias Mussi, Julio V. Cunha,
Anysio Moreira Novais, Carlos Albuquerque, Sebastião Morais, Dr. Gastão e
Cícero e tantos outros beneméritos de Castello, a importância de cinco contos
de réis. Quando terminei a coleta acima referida, fiz a entrega do abaixo
assinado e a importância colhida, recebi de ambas as senhoras o reconhecimento
e a gratidão, pelos relevantes serviços que vinha prestando ao povo humilde da
cidade e do interior. E a obra continuou indefinidamente.
Mesmo sabendo que seria uma obra gigantesca não esmorecemos
em nosso ideal e assim, procurei, desde logo, a figura inesquecível do então
vigário Padre Antolin, querido por toda a população de Castello, para levarmos
avante tal empreendimento. S. Sa., espírito empreendedor não teve dúvidas em
aceitar a idéia e, desde logo, nos dirigimos ao então prefeito, o saudoso Mario
Lima, que acolheu o nosso objetivo e por
esta razão marcamos, uma reunião na prefeitura, sendo convidados para
participarem da mesma os Srs. Archilau Vivacqua, Elmo Ribeiro do Val, Antônio
Bento, Caio Machado Martins, Sizenando Silva e o saudoso Oscar Rangel. Não
havia, naquela oportunidade, qualquer discórdia religiosa entre Católicos e
Protestantes, todos comungavam dos mesmo ideais. Nessa oportunidade, depois de
feitos os primeiros esclarecimentos e aceita a idéia, opinei para que o ilustre
Prefeito dosse.o Presidente da Comissão, com a qual todos concordavam. Em
seguida, o Dr. Mario Lima indicou o Padre Antolin, para Vice_Presidente e meu
nome para Secretário Geral, sendo por todos acolhida as indicações.
A 27 de maio de 1943 reunia-se, então, pela primeira vez, no
salão nobre da Prefeitura Municipal de Castello, sob a égide do Prefeito Dr.
Mario Lima, uma grupo de cidadãos, certos de sua nobre missão, para unir num só
esforço, num único pensamento, a fundação de uma Santa Casa de Misericórdia.Comissão:Presidente: Dr. Mario LimaVice-Presidente: Padre Antolin GonçalvesTesoureiro: Archilau VivacquaMembros Diretores: Elmo Ribeiro do Val; Antônio Bento; Caio
Machado Martins e Sizenando Silva.“Orador”: Aarão Jorge Junior
Nessa oportunidade foi lavrada em seguida, a competente ata,
quando foram registradas todas as reivindicações como lavratura dos Estatutos,
em primeiro lugar, cuja confecção foi feita à noite, em meu Cartório, com a
presença de alguns membros. Nova reunião foi feita e aprovados os Estatutos. Em
seguida, de comum acordo com o extraordinário Padre Antolin, todos os sábados e
domingos saíamos para o interior e, após a celebração das missas, incitávamos
os fazendeiros e demais cidadãos para colaborarem com qualquer quantia para a
consecução de tão vultuosa obra, em benefício do povo de Castello.
Fomos bem acolhidos em todas as nossas reivindicações,
porque o povo generoso do interior do município compreendeu, desde logo, a obra
benemérita que se realizaria para atender a pobreza a aos doentes de todo o
município, que, naquela oportunidade abrangia os então distritos de Conceição
de Castello e Venda Nova, hoje constituídos municípios independentes.
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| Santa Casa de Misericórdia de Castelo |
Depois de percorrido todo o município de Castello e bem assim,
os então distritos de Conceição de Castello e Venda Nova e ainda o de Aracuí,
resolvemos fazer uma comissão composta por mim, Pe Antolin, Abílio de Tassis e
Antônio Bento com a finalidade de conseguir mais recursos na cidade do Rio de
Janeiro e posteriormente Vitória e Cachoeiro do Itapemirim, cujos doadores
tiveram seus nomes inscritos no respectivo livro de atas e também constante nos
estatutos, como gratidão a todos aqueles que, de boa vontade contribuíram com
suas ofertas grandes e pequenas.
Com algum dinheiro em caixa tornava-se indispensável
adquirir o terreno no melhor e mais condizente local para a construção da
futura Santa Casa de Misericórdia. Proclamada essa intenção e marcado o dia da
reunião na Prefeitura, sob a Presidência do então Prefeito e Presidente da
Comissão, ali compareceram os pretendentes à venda Sr. Edson Guimarães,
oferecendo os terrenos do antigo campo de esporte do Castelo F. C.; Argelim
Cola, oferecendo suas casas ali no centro da cidade; o representante do
proprietário dos terrenos do lado oposto do rio, próximo à antiga chácara da
família Egydio Vivacqua, de quem já havia adquirido. Posta as propostas sobre a
mesa e estudadas suas condições e conveniências, como Secretário da Comissão,
propus a aceitação da compra da chácara então pertencente a Cid Azevedo, no
centro da cidade, onde havia um velho casarão da família citada e uma área de
terra com muitas árvores frutíferas, com 16.000 metros quadrados, partindo da
rua Antônio Machado na confluência com a rua Cruz Maia, hoje denominada Antônio
Bento, em linha reta até a confluência com a rua que se dirige ao bairro de
Santo Andrezinho e dali partindo até encontrar o Rio Castello. O preço
oferecido por Cid Azevedo foi de, apenas, sessenta contos de réis, de cuja
importância, retiraria cinco contos de réis, como contribuição para a
construção da Santa Casa. Postas as propostas em votação, por unanimidade foi aceita
a compra dos terrenos pertencentes a Cid Azevedo, porque esta oferecia, sob todos
os títulos as melhores condições.
Lavrada em seguida, a competente escritura, a Comissão
mandou confeccionar a antiga planta, para ser construída na confluência das
ruas hoje denominadas Antônio Bento com a rua Antônio Machado, cujo
frontispício ou fachada, ficaria na esquina das citadas ruas.
Concluída a construção a comissão, desde logo, pôs-se em
campo para adquirir os necessários equipamentos como móveis e maquinários,
tanto para a sala de operações, como para os quartos e enfermarias, fogão,
louças, panelas e ainda talheres, roupas e tudo o mais para complementação da
grandiosa obra que seria, por certo, um grandioso empreendimento para a
consecução de um ideal em benefício da coletividade.
É indispensável esclarecer que, logo após à aquisição do
referido terreno da Santa Casa, já havia no local onde hoje encontra-se a
Capela, um velho prédio assobradado, antiga residência da família Egydio
Vivacqua. Tudo de acordo com o saudoso médico Dr. Gastão Correa de Lima,
naquele velho prédio instalamos consultórios, farmácia, secretaria, bem como
enfermaria para os doentes mais graves e pobres, e tudo o mais que se fizesse
indispensável para o pronto atendimento, até a inauguração da própria Santa
Casa.
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| Mensagem do Bispo - Dom José J. Fernandes |
Em 3 de dezembro de 1944, em Assembléia Geral
Extraordinária, realizada nas dependências do Castello Club, era eleita a
Diretoria Definitiva, com mandato de 2 anos, composta por:
Presidente: Mário Corrêa Lima
Vice-Presidente: Padre Antolin Rodrigues
Tesoureiro: Archilau Vivacqua
Secretário: Aarão Jorge Júnior
Membros Diretores: Caio Machado Martins; Sizenando Silva;
Elmo Ribeiro do Val e Antônio Bento.
A relação dos sócios fundadores da Santa Casa, listados,
naquela ocasião era composta de 303 cidadãos.
Concluída a construção da Santa Casa, os membros da Comissão
construtora, estabeleceram o dia de sua inauguração, ou seja, 19 de outubro de
1947.
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| Aarãozinho proferindo o Dircurso de Inauguração da Santa Casa |
Tivemos a honra de convidar para presidir sua inauguração o
eminentíssimo e saudoso Bispo Diocesano do Espírito Santo, Dom Luiz Scortegagna
e bem assim numerosos Padres, além da convocação do povo de todo o município e
do então Governador do Estado Dr. Jones dos Santos Neves.
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| Discurso publicado na imprensa local (final) |
As ilustres damas D Elzira Vivacqua e Nali Faria Marques, já
haviam entrado em entendimento com a Superiora Geral das Irmãs Vicentinas, e S.
Exca. Revma. Concordou e enviou três irmãs que assistiram as festividades, e,
em seguida, continuaram, como até hoje [data do depoimento] prestando
relevantes serviços à comunidade.
Mantive correspondência com a D.D. Superiora
Geral da Irmandade Irmã Blanchot, dando-nos completa assistência.
O povo do município participou, de maneira prodigiosa àquela
belíssima solenidade, para a qual tive a honra e a glória de fazer o discurso
inaugural, com a presença de todos os membros da Diretoria e do povo em geral.
Concluída, em 19 de outubro de 1947, foi entregue às Rvmas Irmãs
Vicentinas a Santa Casa de Misericórdia de Castello. E, constituída uma
Diretoria, fui eleito seu Presidente e, consequentemente seu Provedor,
dando-lhe a indispensável assistência.
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| SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE CASTELO (tempo presente) |
Verão a sua face e o seu nome estará sobre suas frontes. (Ap. 22: 4)
Notas:
(1) VIEIRA, José Eugênio. 'Castello': Origem, Emancipação e Desenvolvimento. Vitória: Traço Certo, 2004.
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