terça-feira, 24 de maio de 2016

Santa Casa de Misericórdia de Castelo - ES





Aarãozinho, sua esposa Zenaide e as filhas: Consuelo (direita)
Regina Martha (esquerda) e Bernadete (centro)
Aarão Jorge Junior, o Aarãozinho, meu avô,  além da família, quase que equiparadamente amava e falava orgulhosamente de algumas obras públicas que colaborara decisivamente para a sua concretização: a Santa Casa de Misericórdia de Castelo - Espírito Santo; a Capela Nossa Senhora das Graças ; e as escolas, em Castelo e em Ibiraçu, no norte do Espírito Santo, então uma pequenina vila. E passeando nos arquivos que nos deixou – com dezenas de fotos e documentos - constatamos que  era verdadeiro este amor por estes empreendimentos, os quais tratava como se filhos fossem.





Santa Casa de Misericórdia de "Castello" 




A Santa Casa no seu início.
Aarãozinho, em depoimento para a Memória de Castelo - e transcrita no livro 'Castello": Origem, Emancipação e Desenvolvimento" (1), nos legou as seguintes palavras sobre a história da construção da Santa Casa de Misericórdia, em Castelo, que ficou conhecida, no seu tempo, como uma das unidades de saúde mais modernas em atendimento e equipagem, inclusive, face às existentes na Capital do Estado:




Antes da construção da Santa Casa de Misericórdia, em Castelo, a cidade só contava, para atendimento à saúde da população com um pequeno dispensário: o Dispensário Santo Antônio. Este funcionava em um sobrado alugado, onde eram dispensados serviços médicos e gratuitamente. Ocorreu que o proprietário do sobrado mudou-se para o Rio de Janeiro, enquanto as senhoras Elzira Vivacqua dos Santos e Naly Faria Marques se ocupavam da administração.


Tudo corria bem com o dispensário, até que, um ou dois anos depois o Dr Francisco [proprietário do imóvel] solicitou de ambas a devolução de camas e mesas ou a remessa de, apenas, oitocentos mil réis (R$ 800$000). As duas ilustres damas não sabiam como fazer, ficaram embaraçadas porque não tinham o dinheiro solicitado. Nessa oportunidade, encontrava-me, por acaso, na farmácia do saudoso Sr. Elmo Ribeiro do Val. Quando, inopinadamente, ali chegaram as duas senhoras e relataram ao Sr. Elmo, em prantos, característica da saudosa D. Elzira, a situação embaraçosa na qual se encontravam por não possuírem, naquela oportunidade, a importância que lhes era solicitada, antevendo, assim, o desaparecimento de uma obra social de seus sonhos, que vinha prestando relevantes serviços à pobreza e aos doentes desvalidos.


Inauguração da Maternidade


Eu era, nessa oportunidade, apenas um assistente de seus dissabores, cujas lágrimas dilaceraram meu coração, e por esta razão, inopinadamente, tomei a liberdade de oferecer àquelas duas ilustres damas que vinham prestando relevantes serviços aos doentes e à pobreza de Castello, redigir um Abaixo Assinado para conseguir toda a importância por elas desejada, deixando-as esperançosas. Ato contínuo dirigi-me ao Cartório e redigi um abaixo assinado na expectativa de conseguir a importância desejada. Pus-me em campo e, primeiramente, procurei o Prefeito Dr. Mario Lima e solicitei de S. Excia a assinatura de uma importância de cinco mil cruzeiros ou melhor cinco contos de réis, apenas como chamariz, em nome da prefeitura, sem necessitar da importância.


Coloquei neste abaixo assinado a grande obra meritória das duas ilustres damas e, imediatamente assinei Rs 100$000 e assim fui conseguindo dos saudosos Elmo, Oscar Rangel, Taninho, Gatinho, Elias Mussi, Julio V. Cunha, Anysio Moreira Novais, Carlos Albuquerque, Sebastião Morais, Dr. Gastão e Cícero e tantos outros beneméritos de Castello, a importância de cinco contos de réis. Quando terminei a coleta acima referida, fiz a entrega do abaixo assinado e a importância colhida, recebi de ambas as senhoras o reconhecimento e a gratidão, pelos relevantes serviços que vinha prestando ao povo humilde da cidade e do interior. E a obra continuou indefinidamente.


Mesmo sabendo que seria uma obra gigantesca não esmorecemos em nosso ideal e assim, procurei, desde logo, a figura inesquecível do então vigário Padre Antolin, querido por toda a população de Castello, para levarmos avante tal empreendimento. S. Sa., espírito empreendedor não teve dúvidas em aceitar a idéia e, desde logo, nos dirigimos ao então prefeito, o saudoso Mario Lima, que acolheu o nosso  objetivo e por esta razão marcamos, uma reunião na prefeitura, sendo convidados para participarem da mesma os Srs. Archilau Vivacqua, Elmo Ribeiro do Val, Antônio Bento, Caio Machado Martins, Sizenando Silva e o saudoso Oscar Rangel. Não havia, naquela oportunidade, qualquer discórdia religiosa entre Católicos e Protestantes, todos comungavam dos mesmo ideais. Nessa oportunidade, depois de feitos os primeiros esclarecimentos e aceita a idéia, opinei para que o ilustre Prefeito dosse.o Presidente da Comissão, com a qual todos concordavam. Em seguida, o Dr. Mario Lima indicou o Padre Antolin, para Vice_Presidente e meu nome para Secretário Geral, sendo por todos acolhida as indicações.


A 27 de maio de 1943 reunia-se, então, pela primeira vez, no salão nobre da Prefeitura Municipal de Castello, sob a égide do Prefeito Dr. Mario Lima, uma grupo de cidadãos, certos de sua nobre missão, para unir num só esforço, num único pensamento, a fundação de uma Santa Casa de Misericórdia.Comissão:Presidente: Dr. Mario LimaVice-Presidente: Padre Antolin GonçalvesTesoureiro: Archilau VivacquaMembros Diretores: Elmo Ribeiro do Val; Antônio Bento; Caio Machado Martins e Sizenando Silva.“Orador”: Aarão Jorge Junior


Nessa oportunidade foi lavrada em seguida, a competente ata, quando foram registradas todas as reivindicações como lavratura dos Estatutos, em primeiro lugar, cuja confecção foi feita à noite, em meu Cartório, com a presença de alguns membros. Nova reunião foi feita e aprovados os Estatutos. Em seguida, de comum acordo com o extraordinário Padre Antolin, todos os sábados e domingos saíamos para o interior e, após a celebração das missas, incitávamos os fazendeiros e demais cidadãos para colaborarem com qualquer quantia para a consecução de tão vultuosa obra, em benefício do povo de Castello.


Fomos bem acolhidos em todas as nossas reivindicações, porque o povo generoso do interior do município compreendeu, desde logo, a obra benemérita que se realizaria para atender a pobreza a aos doentes de todo o município, que, naquela oportunidade abrangia os então distritos de Conceição de Castello e Venda Nova, hoje constituídos municípios independentes.


Santa Casa de Misericórdia de Castelo


Depois de percorrido todo o município de Castello e bem assim, os então distritos de Conceição de Castello e Venda Nova e ainda o de Aracuí, resolvemos fazer uma comissão composta por mim, Pe Antolin, Abílio de Tassis e Antônio Bento com a finalidade de conseguir mais recursos na cidade do Rio de Janeiro e posteriormente Vitória e Cachoeiro do Itapemirim, cujos doadores tiveram seus nomes inscritos no respectivo livro de atas e também constante nos estatutos, como gratidão a todos aqueles que, de boa vontade contribuíram com suas ofertas grandes e pequenas.


Com algum dinheiro em caixa tornava-se indispensável adquirir o terreno no melhor e mais condizente local para a construção da futura Santa Casa de Misericórdia. Proclamada essa intenção e marcado o dia da reunião na Prefeitura, sob a Presidência do então Prefeito e Presidente da Comissão, ali compareceram os pretendentes à venda Sr. Edson Guimarães, oferecendo os terrenos do antigo campo de esporte do Castelo F. C.; Argelim Cola, oferecendo suas casas ali no centro da cidade; o representante do proprietário dos terrenos do lado oposto do rio, próximo à antiga chácara da família Egydio Vivacqua, de quem já havia adquirido. Posta as propostas sobre a mesa e estudadas suas condições e conveniências, como Secretário da Comissão, propus a aceitação da compra da chácara então pertencente a Cid Azevedo, no centro da cidade, onde havia um velho casarão da família citada e uma área de terra com muitas árvores frutíferas, com 16.000 metros quadrados, partindo da rua Antônio Machado na confluência com a rua Cruz Maia, hoje denominada Antônio Bento, em linha reta até a confluência com a rua que se dirige ao bairro de Santo Andrezinho e dali partindo até encontrar o Rio Castello. O preço oferecido por Cid Azevedo foi de, apenas, sessenta contos de réis, de cuja importância, retiraria cinco contos de réis, como contribuição para a construção da Santa Casa. Postas as propostas em votação, por unanimidade foi aceita a compra dos terrenos pertencentes a Cid Azevedo, porque esta oferecia, sob todos os títulos as melhores condições.


Lavrada em seguida, a competente escritura, a Comissão mandou confeccionar a antiga planta, para ser construída na confluência das ruas hoje denominadas Antônio Bento com a rua Antônio Machado, cujo frontispício ou fachada, ficaria na esquina das citadas ruas.


Concluída a construção a comissão, desde logo, pôs-se em campo para adquirir os necessários equipamentos como móveis e maquinários, tanto para a sala de operações, como para os quartos e enfermarias, fogão, louças, panelas e ainda talheres, roupas e tudo o mais para complementação da grandiosa obra que seria, por certo, um grandioso empreendimento para a consecução de um ideal em benefício da coletividade.


É indispensável esclarecer que, logo após à aquisição do referido terreno da Santa Casa, já havia no local onde hoje encontra-se a Capela, um velho prédio assobradado, antiga residência da família Egydio Vivacqua. Tudo de acordo com o saudoso médico Dr. Gastão Correa de Lima, naquele velho prédio instalamos consultórios, farmácia, secretaria, bem como enfermaria para os doentes mais graves e pobres, e tudo o mais que se fizesse indispensável para o pronto atendimento, até a inauguração da própria Santa Casa.
Mensagem do Bispo - Dom José J. Fernandes
Em 3 de dezembro de 1944, em Assembléia Geral Extraordinária, realizada nas dependências do Castello Club, era eleita a Diretoria Definitiva, com mandato de 2 anos, composta por:

Presidente: Mário Corrêa Lima

Vice-Presidente: Padre Antolin Rodrigues

Tesoureiro: Archilau Vivacqua

Secretário: Aarão Jorge Júnior

Membros Diretores: Caio Machado Martins; Sizenando Silva; Elmo Ribeiro do Val e Antônio Bento.


A relação dos sócios fundadores da Santa Casa, listados, naquela ocasião era composta de 303 cidadãos.


Concluída a construção da Santa Casa, os membros da Comissão construtora, estabeleceram o dia de sua inauguração, ou seja, 19 de outubro de 1947.


Aarãozinho proferindo o Dircurso de Inauguração da Santa Casa

Tivemos a honra de convidar para presidir sua inauguração o eminentíssimo e saudoso Bispo Diocesano do Espírito Santo, Dom Luiz Scortegagna e bem assim numerosos Padres, além da convocação do povo de todo o município e do então Governador do Estado Dr. Jones dos Santos Neves.


Discurso publicado na imprensa local (final)

As ilustres damas D Elzira Vivacqua e Nali Faria Marques, já haviam entrado em entendimento com a Superiora Geral das Irmãs Vicentinas, e S. Exca. Revma. Concordou e enviou três irmãs que assistiram as festividades, e, em seguida, continuaram, como até hoje [data do depoimento] prestando relevantes serviços à comunidade.


Mantive correspondência com a D.D. Superiora Geral da Irmandade Irmã Blanchot, dando-nos completa assistência.


O povo do município participou, de maneira prodigiosa àquela belíssima solenidade, para a qual tive a honra e a glória de fazer o discurso inaugural, com a presença de todos os membros da Diretoria e do povo em geral.


Concluída, em 19 de outubro de 1947, foi entregue às Rvmas Irmãs Vicentinas a Santa Casa de Misericórdia de Castello. E, constituída uma Diretoria, fui eleito seu Presidente e, consequentemente seu Provedor, dando-lhe a indispensável assistência.

SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE CASTELO (tempo presente)

Verão a sua face e o seu nome estará sobre suas frontes. (Ap. 22: 4)



Notas:

(1) VIEIRA, José Eugênio. 'Castello': Origem, Emancipação e Desenvolvimento. Vitória: Traço Certo, 2004.

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