
Eis que eu vos entrego esta terra. Ide e possuí a terra que jurei dar a vossos pais Abraão, Isaac e Jacó, a eles e à sua posteridade. (Dt 1: 8)
Meu bisavô veio do Líbano em fins do século XIX. Nada sei sobre sua vida lá. Mas, sabemos o que foi e o que fez quando chegou ao Brasil. Voltou ao Líbano uma única vez: para encontrar uma esposa. Encontrou Latife Salim, casou, e voltaram para o Brasil. Temos notícias do Vovô Jorge por algumas passagens em livros sobre a imigração libanesa no Espírito Santo.

Mintaha A. Campos (1987), por exemplo, escreveu sobre ele em sua dissertação de mestrado:
Jorge Aarão chegou a Piúma e depois a Monte Belo, município de Iconha, no ano de 1897, com 33 anos de idade, tendo ali fixado residência.
Depois de mascatear, com grande dificuldade, por estradas intransitáveis, percorreu diversos municípios do Estado [do Espírito Santo] e de Minas Gerais. Conseguiu amealhar alguns poucos recursos e adquiriu uma pequena propriedade em Monte Belo, dando início ao seu comércio, onde não havia um só "patrício" [libanês]".
Com sua vinda para Iconha, vieram ao seu encontro outros parentes, como Felipe Moyses, Simão Abrão, Moyses Antonio, Nicolau Naschef, Miguel Bassul, Farid Aarão e seu irmão Aarão Francisco e muitos outros que se fixaram em Monte Belo, tornando-se depois grandes comerciantes.
Disse Aarãozinho, em entrevista à M. Campos:
Meu pai foi o pioneiro e o patriarca da colônia libanesa de Iconha, tendo todos eles recebido o seu apoio moral e material para iniciarem-se na vida comercial. (pg. 78)
No mesmo sentido descreveu Idalgiso Simão (1991):
Jorge Aarão foi o pioneiro, o primeiro de Maghdouche a vir para Salto Grande-Monte Belo, pois através de sua liderança, sua orientação e seu trabalho, outros vieram também, quase todos parentes.
Jorge Aarão, um grande líder, orientou e ajudou os seus compatriotas, homem de fibra, sempre enfrentou corajosamente a adversidade; properou bastante no comércio auxiliado por seus filhos dinêmicos e sua Exma. esposa, Dona Latife Salim Aarão, mulher extraordinária, muito dedicada ao lar com uma família numerosa e maravilhosa e grande tirocínio comercial e político. Tanto Jorge Aarão como a sua esposa, Dona Latife faleceram com idade avançada e estão sepultados em Vitória. Ele era muito religioso.
Carta de Jorge Aarão para o filho Aarãozinho
A relação de "patrícios" que vieram para o Espírito Santo tendo como apoio Jorge Aarão é muito extensa. Idalgiso Simão relaciona, só em Iconha, 94 imigrantes! Ele dedica um capítulo de seu livro ao "Sobrado de Jorge Aarão". Escreve Idalgiso:
Por fora, pintado de branco, símbolo de paz, demonstrando a coragem, o arrojo, o espírito de aventura, a inteligência, o tirocínio comercial dos sírios e libaneses com cidadania turca.
Semelhante a uma sentinela velando, noite e dia, pelos seus compatriotas que se sentiam seguros, tranquilos, confiantes porque naquele casarão residiam um benfeitor e uma família maravilhosa que cooperavam com eles na caminhada inicial por regiões desconhecidas.
Carta de Latife Salim para o filho Aarãozinho
O meu pai sempre me falava que Jorge Aarão foi o pioneiro, o primeiro, de Maghdouche a vir para Salto Grande (Monte Belo) município de Iconha. Homem de fibra, trabalhador, incansável, grande comerciante, religioso, casado com a Sra. Latife Salim Aarão, ela enérgica, grande tirocínio comercial e político.
No andar térreo, a casa comercial e a padaria; no andar superior, a sala de visitas com os móveis bonitos e bem acabados, contendo nas paredes algumas fotografias da família, entre as quais, a de Elias Aarão, os pais de Dona Latife e outras que não consigo lembrar. Da sala de visitas para a de jantar, havia um corredor com várias portas à direita e à esquerda, eram os quartos. A seguir, a copa, cozinha, despensa.
O sobrado, para os patrícios, simbolizava também um pequenino pedaço de seu torrão natal plantado no interior do município de Iconha.
A senhora Sely Beiryz Monteiro, lembrou-me do seguinte: a nascente e a Biquinha d'água de Jorge Aarão. O balde amarrado a um arame que, por uma roda, levava o balde ao rio para apanhar água".
| ICONHA - Espírito Santo |
Filhos:
José Aarão
Aarão Jorge Júnior (Aarãozinho)
Elias Aarão
Salim Aarão
Carlindo Aarão
Altamiro Aarão
América Aarão
Carlinda Aarão
Erlinda Aarão
"O fermento foi feito em Monte Belo; a boa cresceu em Vitória", disse um patrício que se destacou. E, de Vitória para o Brasil.
Maghdouché
Maghdouche, terra de Jorge Aarão, não era mais do que uma pequena aldeia de pastores, no final do século XIX. Distrito de Sidon, não mudou muito desde então, ao que parece.
Ficou muito conhecida pelo Santuário de Nossa Senhora de Mantara. Que foi construído no local onde, segundo a Tradição, a Virgem Maria teria esperado Jesus e seus apóstolos.
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| Santuário Nossa Senhora de Mantara |
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| A gruta onde a Virgem Maria teria descansado. |
Sidon
Sidon, ou Saida, cidade natal de Latife Salim, dispensa apresentações. História importante e multimilenar. Foi uma importante Cidade-Estado Fenícia. Dentre tantas outras coisas. Um porto importantíssimo e estratégico no Mediterrâneo.![]() |
| Castelo do Mar - Construído pelos Templários |
Grande Hotel Brasil - Cachoeiro de Itapemirim
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| Grande Hotel Brasil |
Além do estabelecimento em Iconha, Jorge Aarão fez incursões comerciais em Cachoeiro do Itapemirim. Foi sócio do Grande Hotel Brasil. Depois, Aarãozinho comprou a sociedade e se tornou o único proprietário. Foi ali que ele conheceu Zenaide Ribeiro.
Bibliografia:
CAMPOS, Mintaha Alcuri. Turco Pobre, Sírio Remediado, Libanês Rico: A trajetória do imigrante libanês no Espírito Santo. Vitória: IJBN, 1987.
SIMÃO, Idalgiso. História de uma Colonização. Cachoeiro de Itapemirim: Frangraf, 1991, 2ª edição.






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